quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A verdade sobre a carreira militar

A carreira militar é imaginada por muitos como um romantismo típico de filmes. Usar aquela farda, impecável, cheia de medalhas, com muitas aventuras, conquistas e ter orgulho perante a sociedade é o que muitos jovens sonham ao prestar concurso para ingressar nas forças armadas.

Me desculpe Exército e Aeronáutica, mas a farda da Marinha é a mais bonita!

Porém essa ilusão cai por terra após alguns anos servindo à pátria.

  Dia a dia de um oficial engenheiro é assim, macacão sujo, uniforme cinza, capacete. Nada a ver como imaginam as pessoas 

A seguir, farei um breve resumo das vantagens e desvantagens da carreira militar (dividindo a classe em oficiais e praças).

Oficias

Existe duas formas de ingresso para se tornar oficial de carreira: Ou vc ingressa nas escolas e academias de formação (Escola Naval, AMAN, AFA, IME e ITA) e cursa o ensino superior nelas ou vc, já com uma profissão (médicos, engenheiros, dentistas, advogados, etc.) presta concurso público e ingressa já como oficial (após uma etapa rápida de formação). A primeira forma tem mais vagas, porém vc irá comer o pão que o diabo amassou até se tornar oficial. A segunda forma tem menos vagas e vc dificilmente chegará a oficial general (Almirante, General e Brigadeiro), porém nem todos chegam lá mesmo, somente por indicação política. Pelo seu próprio mérito, um oficial pode chegar até o último posto sem grandes dificuldades (Capitão de Mar e Guerra e Coronel).

Vantagens
  1. 30 anos e se aposenta com salário integral vitalício (atualmente, se não mudar as leis)
  2. Estabilidade. Considerando essa época de crise em que vivemos, essa é uma boa vantagem.
  3. e...e...desculpa gente, mas só existe, atualmente, aquelas duas vantagens. Antigamente havia, auxílio moradia, anuênio, promoção quando ia pra reserva. Todas essas foram retiradas pelo FHC e salários foram congelados por muito tempo. Um típico revanchismo por causa da ditadura.
Desvantagens
  1. O salário (soldo) é bom no início da carreira quando o jovem profissional ainda não tem experiência. O problema é no meio e no fim da carreira, que não acompanha o peso da responsabilidade que é inerente a carreira. Os salários (do Executivo) estão muito defasados em comparação ao Legislativo e Judiciário. Um Defensor Público, por exemplo, ganha, em início de carreira, o mesmo que um oficial no fim dela. Absurdo!
  2. Demora na promoção. Em média, levamos 7 ou 8 anos para subir de posto. Isso tem levado a evasão (porém a crise ajudou a reter) de oficias das forças armadas como relata esse link:https://www.sociedademilitar.com.br/wp/2016/02/adeus-exercito-mais-oficiais-desligados-depois-de-passar-em-concursos.html
  3. Na nossa sociedade, nenhum prestígio, infelizmente. Há um vídeo na internet em que a população americana aplaude de pé quando um grupo de militares desfila pelas ruas, como se dissessem, obrigado por lutar em guerras e dar sua vida por mim. Nunca isso ocorrerá por aqui. Até andar nas ruas do Rio, nós, da Marinha, somos impedidos, pois nossa farda cinza (dia-a-dia) nos confunde com a dos policiais militares (PM-RJ) e vai que um bandido nos confunde com policial e nos mata, ne?! Um total absurdo. http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/02/traficantes-disparam-contra-centro-de-instrucao-da-marinha-no-rio.html
  4. Falta de recursos para gerir o mínimo. Além de todas as dificuldades ainda nos deparamos com mais essa. Não há um mínimo de investimentos nas forças armadas desse país. Somo obrigados a trabalhar com equipamentos obsoletos, remendando navios velhos e sem capacidade operacional. O mesmo deve acontecer no Exercito e FAB. Como disse um General certa vez, não temos capacidade de resistir nem a 15 minutos de guerra (https://exame.abril.com.br/brasil/exercito-brasileiro-possui-municao-para-uma-hora-de-guerra/). Quem quiser invadir esse país pode vir de boa. Se eu dissesse o que eu sei sobre nossa Marinha vcs iriam chorar. Mas temos submarinos, porta-aviões, caças, fragatas, corvetas, alguém dirá. Sim nós só temos. todos com tecnologia defasada e pior, sem capacidade operacional por falta de recursos do nosso governo. Ainda existe doidos falando em submarino nuclear brasileiro, uma piada de mal gosto.
  5. Classe sem união. De todas as classes de profissionais, a dos militares é a menos unida. Não temos permissão (lei) para fazer greves. Assim, ninguém briga por aumento de salário (que claramente não acompanha a inflação). Nem mesmo nossos líderes (Oficias-Generais) fazem alguma pressão para melhorar a vida da tropa, pois tem super salário e estão pouco se lixando, apenas querem comer lagostas e tomar seu Whisky 12 anos. Ainda há um pensamento medíocre por aqui que é: Não esta feliz, pede baixa. Por isso que hoje (no Rio), um oficial mora no subúrbio, e um praça na favela. Muito triste isso. http://www.forte.jor.br/2013/08/19/evasao-de-oficiais-das-forcas-armadas/
Não vai espalhar por aí que eu falei mal da nossa gloriosa Marinha hein !
Praças

Também existe duas formas de ingresso para se tornar praça de carreira: Ou vc ingressa nas escolas de formação como grumete, soldado, etc (e come o pão que o diabo amassou), ou vc, já com um curso técnico, ingressa como cabo especializado ou sargento (e come o pão que o diabo amassou). Se por um lado não tem moleza para um praça (vc irá fazer muita faxina, limpar banheiro, pintar parede, cortar grama), por outro lado, não haverá muitas responsabilidades (fica a cargo do oficial). Na minha opinião de oficial, os praças não podem reclamar do salário, pois são muito bem pagos para um profissional com apenas ensino médio-técnico.

Primeiro vem o sonho...

...depois o choque de realidade.

Vantagens
  1. Bom salário
  2. Estabilidade
  3. Pouca ou nenhuma responsabilidade (esperam ordens do oficial)
  4. 30 anos e se aposenta com salário integral vitalício
Desvantagens
  1. Geralmente dão mais serviço (24h no quartel)
  2. Trabalho mais braçal (isso pode ser vantagem pra quem não gosta de pensar)
  3. Disponibilidade permanente (Não existe essa de 40 horas semanais, vc fica no quartel até seu superior liberar)
Pra quem teve pouca ou nenhuma chance na vida, ou seja, desde novo teve que trabalhar para ajudar em casa, vem de família muito humilde, que não pôde bancar seus estudo quando jovem, entrar como praça nas forças armadas pode ser uma ótima saída para fugir da pobreza e ter uma vida minimamente digna.

Conclusão

Não vou mentir pra vcs, a Marinha não é tão ruim assim (visão parcial de um oficial). Depois que me formei em Engenharia Mecânica, trabalhei alguns anos na iniciativa privada e posso afirmar que em comparação com a Marinha, trabalhar em empresa privada é muito pior, com horários absurdos (chegava no trabalho às 08h e saia ás 20h), salário ridículo em cargos iniciais, muita pressão por resultados e bastante competição entre colegas. Nas forças armadas não há nada disso. A rotina é tranquila: das 08h às 16h. Em alguns quartéis até 12h por motivo de contenção de despesas. A pressão é bem menor (varia de acordo com o comando, mas no geral é menor). Eu não preciso puxar o tapete de ninguém pra ser promovido, isso contribui para que haja maior companheirismo entre os militares. Também não posso deixar de dizer que o salário integral nos deixa anos luz a frente de muitos civis. Um Capitão de Mar e Guerra ou Coronel se aposenta, hoje, com mais ou menos 14 mil líquidos. Quanto eu precisaria ter de patrimônio para gerar essa receita vitalícia ? Talvez uns 4,5 milhões. Então é óbvio que isso ainda prende muita gente por aqui.

Não obstante, uma pessoa só entra (e permanece) pras forças armadas por três motivos
  1. Dinheiro
  2. Vocação
  3. Tradição da família (geralmente o pai foi militar)
Eu ainda estou aqui por dinheiro. Se passasse num ótimo concurso (não vai acontecer, pois não estudo), tivesse muito sucesso num negócio próprio (pouco provável, mas possível), herdasse uma fortuna (nunca vai acontecer tb) ou ganhasse na loteria (nem o que dizer) não pensaria duas vezes antes de pedir baixa.

Portanto, se continuar do jeito que esta, somente alguns irão permanecer (vocação e necessidade) pois já vi muito talento sendo desperdiçado aqui, e que poderia estar ganhando bem mais na iniciativa privada (até mesmo num negócio próprio). O que impede a saída em massa dos militares ainda é a aposentadoria integral. Acredito que quando a economia voltar a crescer e/ou voltarmos a termos bons concursos, a a fuga de muitos militares pra vida civil voltará a ocorrer e as forças armadas deverão repensar seu plano de carreira para não só atrair, mas principalmente reter seus militares.

Links:

Abraço e que Deus nos ajude !


9 comentários:

  1. Olá Hank! Excelente e muito esclarecedor o seu post sobre a realidade da carreira militar. É um assunto que eu pessoalmente desconhecia, não tenho ninguem proximo a mim que esteja nas forças armadas.

    Abs e sucesso!

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  2. Fala RC, tudo bem ?

    Eu tb não tenho ninguém da família que é militar, sou o único. Entrei por causa do dinheiro mesmo, que é bom no início. Mas como nós somos subutilizados (pois militar trabalha do pinico a bomba atômica) isso vai nos desmotivando e faz com que tenhamos um plano de fuga. IF é uma delas. Abraço

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  3. Olá Hank. Primeira vez no seu blog e cheguei através do blogroll do VDC. Esse texto foi uma leitura bem interessante, pois me formo esse ano em Engenharia Mecânica e pretendo fazer o concurso para Oficial de Engenharia na FAB, pois o salário deve girar em torno de R$ 8.000,00 líquidos o que seria ótimo para um recém-formado e é um valor que você não irá encontrar na iniciativa privada com início de carreira. Vou acompanhar seu blog, pretende pincelar mais sobre a carreira militar?

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  4. Olá Anon. bem vindo ao blog! Como vc mesmo disse, o salário inicial é muito bom, dificilmente um engenheiro, (ou qualquer outra profissão) recém formado, irá ganhar isso na iniciativa privada. O problema é o depois. Muito tempo para ser promovido (a Aeronáutica é ainda pior que a Marinha nessa questão) e quando ocorre a promoção o salário não compensa.

    Pretendo sim escrever mais sobre a vida militar, pois é um assunto pouco discutido e cheio de visões distorcidas. Bons estudos e boa sorte no dia da prova ! Abraço

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  5. Hank eu por acaso entrei aqui no seu blog, mas acompanho outros blogs de finanlas e te falo, militar geralmente reclama de barriga cheia, concordo que na parte de equipamentos a coisa pode estar ruim, mas na parte de salários discordo totalmente, um oficial mesmo em fim de carreira ganha muito bem se comparado a um aposentado do INSS, vc mesmo disse que vai ficar dois anos so estudando e ainda recebendo seu salário, onde numa empresa privada vc iria conseguir isso. Tem muito oficial que não faz porcaria nenhuma e so fica sentado com a bunda o dia todo em um escritório mexendo com papel, quer maior facilidade do que isso. E outra pra mim pessoal do judiciário e outros servidores como auditores fiscais tinham que ganhar um salario que atendam as necessidades básicas e nao salários de marajá.

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  6. Fala anônimo, obrigado pelo comentário.

    O início da carreira é muito bom em termos de salário, o problema é a evolução ao longo da carreira, que não muda muito. Estou falando aqui em 30 anos sem um aumento expressivo! No final, quando se aposenta, aí, como vc disse, o negócio fica bom, comparando ao pessoal do INSS. Mas, somente depois de 30 anos. É muito tempo, uma vida toda. Por isso que muitos oficiais(e até praças) pulam fora pra outros concursos que pagam mais(hj em dia, menor evasão por conta da crise).

    E tem mais. Um militar não trabalha apenas 8 horas diárias. Mas está permanentemente de serviço. Por mais que seja remota a ideia do Brasil se envolver numa guerra (nossa guerra é interna) quem vc acha que vai lá pro campo de batalha? Um auditor fiscal? Um juiz? Um deputado ?

    Não reclamamos de barriga cheia. Reclamamos para que haja uma maior igualdade de salários nas esferas executiva, judiciária e legislativa. Chegamos ao absurdo de um servente de café do legislativo ter uma salário maior que um comandante de um navio fragata (executivo). De modo geral, não é ruim, mas tb não é esse mar de rosas. Não dá pra comparar com a iniciativa privada, pois varia muito as condições de trabalho de empresa para empresa. Abraço!

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  7. Olá, Hank, acho que a minha primeira vez aqui no blog. Interessante seu ponto de vista. Também Já fui militar, sou formado na EFOMM e fui militar durante a escola. Hoje trabalho na Marinha Mercante. Realmente há uma certa precarização nas forças armadas, e como você disse os salários iniciais são bons, mas no fim da carreira vc vê que no acumulado saiu perdendo de um funcionário do setor provado, e só fica bom mesmo quando vc vê a aposentadoria. Tinha sonho de ser do exército mais por influência familiar, acabei indo parar na Marinha. Hoje fico pensando se não seria melhor ter ido pro exército e está mais "tranquilo", pois vida de embarcado não é fácil. Grato pelo texto, continue postando, vou acompanhar. Abc e bons ventos.

    Mercante

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  8. Fala Mercante, tudo bem?

    A verdade é que o ser humano nunca está satisfeito. Se estamos casados queremos ficar solteiros, se estamos solteiros queremos alguém pra nos tirar da solidão. O mesmo acontece com nossa vida profissional. Se estamos ganhando não tão bem mas estamos com estabilidade queremos o inverso, ganhar mais e correr mais riscos, e vice versa.

    Temos que aceitar as oportunidades que a vida nos dá. Agora se realmente está insatisfeito, sempre podemos mudar o rumo da nossas vidas. Já trabalhei embarcado tb, mas foi só alguns dias, e pude perceber como é estressante vc não voltar pra casa ao fim do dia. Realmente não é fácil trabalhar 24h.

    A vida militar é muito boa, não posso negar. Mas falta motivação de ordem financeira ao longo da carreira para reter seus profissionais. Agora mesmo, mais um oficial, um dos meus melhores amigos, acabou de sair, passou na prova de auditor fiscal.
    Abraços e bons ventos!

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  9. Pois é, Hank! Isso mesmo, o ser humano está sempre insatisfeito! Grande Abraço.

    Mercante!

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